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Details - 2003 - O que faz Keanu chorar?

Quando ele tocou a campainha estava segurando um capacete preto de moto. Ele estava tímido e apertou minha mão. Chamou-me de senhor – talvez pelo nervosismo, talvez simplesmente devido à minha idade. Eu sou dez anos mais velho, mas inesperadamente senti como se tivesse 60. Eu concedi a ele uma visita ao primeiro andar da minha casa. Ele examinou tudo: paredes cobertas com cortiça e recortes de jornais, um pequeno piano alemão, um grande número de livros, uns (poucos) com meu nome na capa. Ele disse que não estava familiarizado com meu trabalho. Enquanto ele examinou um dos meus romances com meticuloso cuidado, eu disse que tinha acabado há pouco tempo uma narrativa do Budismo e Hollywood, dois assuntos que eu sabia que ele estava familiarizado. Ele usou o banheiro do primeiro andar, então nós subimos até a cozinha. Entrando no clima, “jogamos conversa fora”. Eu sabia que queria envolvê-lo em assuntos muito sérios. Assuntos sobre morte. Como você consegue isso sem ser grosseiro quando tudo que você tem é 90 minutos? Para falar a verdade, eu fiquei até surpreso dele aceitar vir.

As pessoas que trabalham para ele sugeriram de nos encontrarmos no bar do “Chateau”. Agora, eu morro de amores pelo “Chateau”, mas odiei a idéia de sentarmos lá. Ele poderia, por favor, vir à minha casa? Eles telefonaram alguns dias depois e disseram, sim, ele pode. Mais tarde, o encontro foi adiado e eu pensei que talvez ele tivesse reconsiderado e o bar do “Chateau” era a escolha ideal por ser mais refinada, elegante, mas logo depois o próprio keanu ligou para dizer que se atrasaria 20 minutos. Lá estava ele. Bonito como era de se esperar – você se depara com uma intensa masculinidade, e simultaneamente com uma beleza juvenil e suave. Mas, ele é invisível, também: eu duvido que alguém o reconheceu na sua “extravagância”, descendo a 10 (ele pilotou uma simples e bonita Harley. Sua Norton teve uma “gripe”). Eu espero que alguém tenha reconhecido porque eles ganharam uma moto do astro de Matrix que poderia ter ido correndo contar aos amigos, família, namorada. Além disso, ele não deseja aparecer (ele procura ser invisível quanto a si próprio). Ele é inerentemente brincalhão, gracioso e humilde. Um tanto formal. Provavelmente arredio não apenas quanto a esse tipo de assunto. Qual seria? Eu o conheci antes, na festa do “The New Yorker”, em todos os lugares, durante a convenção do livro, eu poderia avistar Tracey Ullman falando-lhe a respeito de River Phoenix. (Eu não iria falar sobre River hoje) Prometi ao Keanu que se algum assunto o incomodasse não o mencionaria. “Quando eu mencionei isso Keanu emitiu um ‘blah’, se contendo, estava claramente relutante”. Eu passei meus últimos anos imerso no “mundo da morte” pesquisando meu romance e disse que queria falar sobre morte. Ele não imaginava.

Eu preparei um grande prato de frutas para ele, algo que eu fiz apenas para mulheres. “Que civilizado”, disse ele. Ele está pensativo e ligeiramente ansioso, e 90 minutos é um período curto. A solução surgiu como uma onda silenciosa, ocorreu-me aquela história da descendência chinês-havaiana, inglesa. Nós começamos falando sobre seu papel em Pequeno Buda (Little Buddha). Ele estava em Toscana gravando outro filme quando ficou sabendo que Bernardo Bertolucci desejava encontrá-lo. Após a entrevista, Bertolucci o contratou, dizendo, “Você tem uma impossível inocência”. O diretor é persuasivo, é sedutor, mas ele provavelmente teve mais do que 90 minutos para gastar. Muito embora, isso seja verdade. Agora aqui está ele, impossivelmente inocente, comendo fruta, você quase pode cheirá-lo, muito Siddhartha. Ninguém deseja que algo de ruim lhe aconteça. Recordando-se, Keanu diz que outro ator o ensinou a meditar. O processo causou um magnífico (profundo), um anormal senso de percepção; pela primeira vez, Keanu viu a separação entre mente e vontade (escolha), “como tudo insiste em existir – essa foi a revelação – além da psicológica interpretação”. Veja, ele sabe mais sobre isso do que deixa transparecer. “Tudo isso é Vajrayana”, ele diz informalmente. (Vazio, indestrutível como um diamante)

Ah, droga! Olho de relance para o meu relógio. Metade do nosso tempo já havia passado – como pode? Rápido, naturalmente continue com o tópico do pai. Ambos tivemos grandes separações dos patriarcas da família quando tínhamos 13 anos; ele não vê o seu desde então. (Eu disse a ele que sei que seu pai passou um tempo na prisão, mas aquilo nem se comparava com o velho Woody Harrelson, quem foi condenado por matar um juiz federal. Keanu ri; parece que ele não sabia disso.) Disse que seu pai tentou conseguir falar com ele por carta enquanto Keanu estava em uma turnê pelo Havaí com a sua banda Dogstar, mas ele não respondeu. “Eu tenho o seu sangue”, ele diz. “Não há nada que venha dele que eu queira ou precise”. “De qualquer forma, é assim a nossa relação agora. Isto é o mais longe que ele pode chegar, até a idade em que me encontro: 39 anos de idade. Nós apenas olhamos um para o outro e não nos importamos. São situações difíceis entre pais e filhos desconhecidos”. Ele fala amorosamente sobre suas três irmãs. Duas mais novas, e uma ainda mais nova. Quem ele afirma ainda não conhecer. Kim é a que está doente com leucemia. Ela costumava montar cavalos Andaluzia. “Eu acho”, ele diz, com uma misteriosa e carismática serenidade, “que ela é a pessoa mais corajosa que eu já vi”. Kim tem passado por situações muito difíceis e seu irmão ama sua persistência. “Eu dou a ela tudo que deseja”, ele declara, enigmático, angustiado, poético. Eu digo a ele: Olhe, eu quero falar um pouco mais sobre morte. Eu não posso fazer nada. Isso é tudo que o envolve, tudo que nos envolve. Eu mencionei sua antiga namorada, Jennifer, e a criança que eles teriam, se é que alguém pode trazer à tona algo tão doloroso nos 30 minutos restantes. Este é o horror disso. Eu estou pensando nisto quando inesperadamente ele diz, “Eu vou chorar”. Ele é impossivelmente desprotegido, franco, sem nenhum cinismo, inocente. Ele me diz que Jennifer foi ao último check-up e o médico disse, “Eu tenho que mandá-la a um especialista”. Ela olhou preocupada e disse, “O que você quer dizer?” “Eu não consigo ouvir os batimentos cardíacos”. Na época, Keanu estava fazendo um filme em New York – Jennifer ligou, gritando. Ele voltou apressado. Quando eu perguntei se ele estava na sala na hora do parto, keanu, com sua tristeza, sentado frente a mim e ao grande prato de fruta, diz, “Sim, claro!” e o semblante dele se assemelha com o de uma pessoa que pensa: Que insanidade, loucura da minha cabeça poderia me fazer não estar lá no parto da criança que tínhamos acabado de dar um nome. Não há palavras. Ele amou Jennifer e cuidou dela antes, durante e depois. Eu não perguntei quanto tempo depois ela morreu no acidente de carro. Alguém pode, por favor, descobrir? Eu não vou perguntar ou olhar na internet. Não há palavras. Ele me diz, “Quando as pessoas dizem que tudo acontece por uma razão, aquilo fica marcado em mim”. Eu digo que eles devem apenas deixar para lá, “por uma razão” e Keanu ri, adicionando, “Isto é muito Ram Dass”.

Outra pergunta esquisita segue-se, forçada pelo relógio: Eu perguntei o que ele vai fazer com o dinheiro. Eu li em algum lugar que eles pagaram a ele uma quantia absurda pelos “Matrixes”, além do salário (do dinheiro fixo). Ele diz que não sabe. Parece envergonhado com esse assunto. (Um homem naturalmente modesto) Eu pergunto se ele tem pessoas que cuidam disso ou se ele pensa nisso. “Claro que penso”, ele diz, não estava irritado, mas eu ainda sinto que falar de dinheiro o faz sentir-se mais desconfortável que falando sobre morte. (Isto é o que eu instintivamente gosto nele.) De qualquer modo, seu grande temor, curiosamente, docemente, acontece no que diz respeito ao mundo da atuação. É o que os atores têm medo. Qual o próximo trabalho, é este, é aquele. No mundo normal – inocência impossível. Ele ama tocar música, mas sua banda parece ter se separado. Todos da Dagstar se reuniram em uma sala e disseram, “Hei! Nós não conseguimos criar uma música”. Ele tem um novo grupo chamado Becky, após o drama da namorada. Ele acabou de fazer um filme com Jack Nicholson, quem ele acha o homem mais charmoso do mundo. “Quando nós fizemos cenas juntos, eu tive que parar de ficar admirando seu desempenho para não me perder na cena”, keanu diz. Ele está aberto a tudo e você consegue ler isso no seu rosto – ele recentemente apareceu em um pequeno filme chamado Impulsividade (Thumbsucker) com o diretor estreante chamado Mike Mills. Keanu interpreta um ortodontista, que dá conselhos a um adolescente. Quanto à keanu ser pai – é engraçado para mim. Ele diz, “Eu já tenho os meus Huh! - Eu tenho quase 40 anos! Eu posso ver os homens comprando o carro. Eu posso ver porque eles dizem, ‘Eu quero viver! Eu ainda não vivi! ’”

Mas oh, oh, oh, o tempo está passando. Droga, dorga, dorga. O relógio não pára: o maior tempo que ele ficou com uma mulher foi cerca de um ano, mas ele quer fazer aquela coisa do relacionamento. Ele acha que ter filhos é algo que você precisa para ter experiência. Mas por que diabos ele foi nascer no Líbano (pergunta o relógio)? Seus pais foram, lá pelos seus vinte anos, viajar por aí. Então a família foi para a Austrália, e depois para Manhattan, eu acho que foi nessa ordem, alguém pode, por favor, confirmar, mas principalmente ele cresceu em Toronto. É para onde ele voltaria se fosse retornar a um lugar que pudesse chamar de lar. David Cronenberg mais tarde disse-me que sua mulher deu aulas a keanu na escola quando ele tinha 10 anos. Em Toronto havia uma loja chamada “Candy Store” que vendia doces e “switchblades” (um tipo de doce, bala). E clubes que ele freqüentava, embora, muito jovem para ir. O jovem Reeves dirigiu seu carro rumo a Los Angeles quando tinha 20 anos. Carro esse que continua funcionando de forma inacreditável. Ele lê muito – tem uma admiração por autores russos: um livro de Ageyev chamado Romance com Cocaína (1916); As curtas histórias de Chekhov; e o seu preferido, Tolstoy. Não tem super-astros como amigos. Seus companheiros são pessoas com Alex Winter (A Aventura de Bill e Ted) e Josh Richman (Juventude Assassina). Não sabe qual seu próximo projeto, um bom filme. Ele está lendo alguns roteiros. Coisas normais para atores. Eu o pergunto se ele tem problemas em sair na rua. Algumas vezes, ele diz. A maioria das vezes, no entanto, as pessoas não o importunam. Mas agora ele tem que ir.

Eu mendigo mais cinco minutos. Eu o mostro o especial do septuagésimo aniversário de Tivo’d Willie Nelson na tela grande do andar superior. Willie, Leon Russell e Ray Charles cantando “Uma música para você” (“A Song for You”). Willie encara Ray Charles com lágrimas escorrendo pelo seu rosto enquanto o homem cego canta, “Eu amo você em um lugar onde não há espaço ou tempo/Eu amo você pela minha vida, você é meu amigo/E quando minha vida acabar, eu me lembrarei de quando estávamos juntos/Nós estávamos sós, e eu estava cantando essa música para você”. Willie chora, frente a Ray Charles e a eternidade. Eu volto a olhá-lo. Ele está comovido, sutilmente tremendo. Eu o levo até a moto. Ele é o tipo de pessoa que você deseja abraçar. Ram Dass ou outra pessoa disse, “Pense menos, abrace mais!”. Mas, você geralmente não faz isso com um entrevistado. Pelo menos aparentemente. Mas você sente como se o estivesse abraçando, realmente sente. Esta noite, um jornalista amigo pergunta, “Conseguiu alguma citação boa?”
Pessoalmente, eu gostei (1) “Impossível Inocência” (mas essa era do Bertolucci), (2) “Eu vou chorar”, e (3) “Nós não conseguimos criar uma música!”.
Não necessariamente nessa ordem.
Isso não importa. Tudo importa.
Tempo esgotado.
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